Hérnia de disco cervical

O que é a hérnia de disco cervical


Os discos intervertebrais são os amortecedores da coluna: ficam entre as vértebras, permitem o movimento e diminuem o impacto. Cada disco tem uma parte externa, firme e resistente (o ânulo fibroso), e um centro macio (o núcleo pulposo).


A hérnia de disco acontece quando um fragmento desse núcleo escapa pela parte externa e comprime a raiz de um nervo ou a própria medula dentro do canal da coluna. No pescoço, isso costuma causar dor que desce para o ombro, o braço e a mão, às vezes com dormência, formigamento ou perda de força.


É uma doença comum, e a maioria das hérnias cervicais melhora com tratamento sem cirurgia ao longo de algumas semanas ou poucos meses. A cirurgia é reservada para situações específicas, explicadas mais abaixo.


Se a sua dor é na região lombar, veja a página de Hérnia de disco lombar.

Hérnia de disco Cervical

Quais são os sintomas



Na hérnia de disco cervical, os sintomas dependem do que está sendo comprimido: a raiz de um nervo ou a medula. São dois quadros diferentes, com gravidade e urgência diferentes, e é importante saber distingui-los.



1. Compressão de um nervo: dor que irradia para o braço



É o quadro mais comum e, em geral, melhora com tratamento sem cirurgia. Como a maioria das hérnias atinge um dos lados do disco, os sintomas costumam aparecer em um braço só. O principal sintoma é a dor que desce do pescoço para o braço, muitas vezes mais intensa do que a dor no próprio pescoço. A região onde a dor e a dormência aparecem depende de qual nervo está sendo comprimido, como mostra a figura.



  • Dor que irradia: vai do pescoço ou da região entre as escápulas para o ombro, o braço, o antebraço e a mão, às vezes até os dedos.
  • Dormência, formigamento ou queimação: em parte do braço ou da mão, em geral em dedos específicos, conforme o nervo comprimido.
  • Perda de força: dificuldade para levantar o braço, segurar objetos ou fazer movimentos finos com a mão. Não acontece em todos os casos e deve ser avaliada logo.
  • Dor e rigidez no pescoço: podem piorar ao inclinar ou girar a cabeça para o lado da dor.
Trajeto da dor na cervicobraquialgia

2. Compressão da medula (mielopatia cervical): quadro mais grave



É menos comum e acontece quando a hérnia é grande ou central e comprime a medula, que passa dentro do canal da coluna. Ao contrário da dor no braço, a mielopatia pode causar pouca ou nenhuma dor no pescoço e costuma piorar aos poucos. Os sinais afetam as mãos, as pernas e o equilíbrio, não só um braço:



  • Desajeito nas mãos: dificuldade para abotoar a roupa, escrever ou segurar objetos pequenos.
  • Alteração do equilíbrio e da marcha: sensação de pernas pesadas ou rígidas, instabilidade e tropeços.
  • Dormência ou formigamento: nos dois braços ou nas pernas.
  • Alteração urinária ou intestinal: em casos avançados, perda do controle da urina ou das fezes.



Esses sinais exigem avaliação rápida, porque a compressão da medula pode deixar sequelas se não for tratada. Os sintomas que pedem atendimento de urgência estão listados no bloco "Quando procurar ajuda", mais abaixo.

Por que acontece


Com o passar dos anos, o disco perde água e altura e fica mais sujeito a pequenas fissuras. Em algum momento, parte do núcleo escapa por uma dessas fissuras e forma a hérnia. Por isso, em geral, ela aparece em um disco que já tem algum desgaste.


Muitas vezes a dor começa sem um motivo claro, depois de um movimento simples, de uma noite mal dormida ou de uma postura mantida por muito tempo. As hérnias traumáticas, causadas por quedas ou acidentes de carro, são mais raras.


O que aumenta o risco


  • Genética: a predisposição familiar é um dos principais fatores da degeneração do disco.
  • Cigarro: reduz o oxigênio que chega aos tecidos e diminui a capacidade de regeneração do disco.
  • Ocupação: carregar peso sobre a cabeça ou os ombros, trabalhar com vibração e passar muito tempo com o pescoço flexionado, como no uso prolongado de celular e computador, podem sobrecarregar os discos.
  • Trauma: pancadas e movimentos bruscos do pescoço, como no chicote de acidentes de carro, podem acelerar o desgaste do disco.

Quando procurar ajuda?

AGENDE UMA CONSULTA

Procure um pronto-socorro imediatamente se tiver:

  • fraqueza súbita ou que piora rapidamente em um braço, em uma mão ou nas pernas;
  • dificuldade para andar, perda do equilíbrio ou quedas frequentes;
  • perda do controle da urina ou das fezes;
  • dor muito intensa depois de uma queda, batida ou acidente;
  • dor no pescoço com febre, calafrios ou perda de peso sem explicação.

Esses sinais podem indicar compressão da medula ou outra causa grave, e são uma urgência.

Agende uma consulta se tiver:

  • dor que desce do pescoço para o braço;
  • dormência ou formigamento no braço ou na mão;
  • perda de força no braço ou na mão, mesmo que leve;
  • dificuldade para abotoar a roupa, escrever ou segurar objetos pequenos;
  • dor intensa que não melhora com analgésicos comuns;
  • dor que persiste por mais de algumas semanas, apesar do tratamento.

Como é feito o diagnóstico?


O diagnóstico começa com a conversa e o exame físico. Na consulta, avaliamos a sensibilidade, a força, os reflexos e a coordenação das mãos, e fazemos testes específicos para descobrir qual nervo está sendo comprimido e se a medula está envolvida. Depois, podem ser necessários exames:


  • Ressonância magnética da coluna cervical: é o exame ideal para ver a hérnia, os nervos e a medula.
  • Radiografias: mostram o alinhamento das vértebras e a altura dos discos, e as feitas com o pescoço inclinado para a frente e para trás avaliam a instabilidade. Elas não mostram a hérnia de disco.
  • Tomografia computadorizada: mostra os ossos em detalhe, ajuda a diferenciar a hérnia dos "bicos de papagaio" (osteófitos) e é útil no planejamento da cirurgia.
  • Eletroneuromiografia: em alguns casos, avalia como os impulsos elétricos passam pelos nervos e ajuda a diferenciar a hérnia de outras causas de formigamento na mão, como a síndrome do túnel do carpo. Ela pode ser normal em quem tem hérnia.


Tipos de alterações do disco


Todas as alterações abaixo fazem parte do envelhecimento do disco e podem causar dor irradiada ou alterações neurológicas.


Fissura


É uma lesão na parte externa do disco (o ânulo), com ou sem abaulamento. Em geral, está ligada a uma crise de dor local no pescoço.

Protrusão ou abaulamento


O disco perde altura e a parte externa fica abaulada, mas continua íntegra e o conteúdo permanece dentro do disco. Se o abaulamento for grande ou estiver perto da saída do nervo, pode haver sintomas neurológicos.

Hérnia de disco


Um fragmento do núcleo atravessa a parte externa do disco e vai para dentro do canal vertebral, podendo comprimir um ou mais nervos. A hérnia pode ser contida (quando fica atrás do ligamento longitudinal posterior), extrusa (quando atravessa esse ligamento), extrusa migrada (quando o fragmento se desloca para cima ou para baixo) ou extrusa sequestrada (quando o fragmento perde o contato com o disco).

Como é o tratamento?


O tratamento é feito em etapas. A maioria das hérnias cervicais melhora com tratamento sem cirurgia, ao longo de algumas semanas ou poucos meses.


1. Tratamento conservador


Inclui medicamentos para a dor e a inflamação, prescritos conforme a intensidade dos sintomas, e fisioterapia. Quando há dor neuropática (queimação ou choque), podem ser usados remédios específicos para o nervo. As terapias físicas e a acupuntura ajudam no conforto durante a fase inflamatória, e a atividade física orientada deve ser retomada assim que possível. Não use medicamentos fortes por conta própria.


2. Infiltração (bloqueio)


Se a dor no braço continua forte, podemos fazer uma infiltração guiada por radioscopia, que leva anestésico e corticoide até a região do nervo inflamado. Ela pode trazer um alívio importante na fase inflamatória e, em alguns casos, evitar a cirurgia. Saiba mais em Bloqueios e infiltrações.


3. Cirurgia


A cirurgia é considerada quando há perda de força, sinais de compressão da medula (mielopatia) ou quando a dor no braço continua forte apesar do tratamento. O objetivo é aliviar a compressão do nervo ou da medula e, com isso, a dor e os demais sintomas. Todas as cirurgias são feitas com monitorização neurofisiológica, que acompanha a função dos nervos e da medula durante o procedimento.


As opções de cirurgia estão descritas abaixo. A escolha depende do tipo e da posição da hérnia, da idade, do estado do disco e das articulações da coluna e dos sintomas de cada paciente.

Como é a cirurgia


Discectomia e artrodese cervical anterior (ACDF)


É a técnica tradicional e a mais usada na hérnia de disco cervical. A sigla vem do inglês Anterior Cervical Discectomy and Fusion. A cirurgia é feita sob anestesia geral, por um pequeno corte na frente do pescoço, geralmente em uma dobra da pele. As estruturas do pescoço são afastadas com cuidado até chegar à coluna.


Retiramos o disco doente, com a hérnia e os osteófitos que comprimem o nervo ou a medula, e liberamos as estruturas nervosas. No lugar do disco, colocamos um implante (cage), em geral com uma pequena placa e parafusos, que devolve a altura do espaço e permite que as duas vértebras se unam com o tempo (artrodese).


Prótese de disco cervical


Em pacientes selecionados, em vez de fundir as vértebras, podemos colocar uma prótese de disco, que mantém o movimento do segmento operado. O acesso e a retirada do disco são os mesmos da ACDF.


A prótese é indicada principalmente em pacientes mais jovens, com hérnia em um ou dois níveis e sem instabilidade, deformidade ou artrose importante das articulações da coluna. Não serve para todos: o exame físico e as imagens definem se a prótese ou a artrodese é a melhor opção em cada caso.

Cirurgia endoscópica em casos selecionados


Em casos selecionados, a hérnia de disco cervical pode ser tratada por endoscopia, por uma via posterior, sem retirar o disco inteiro e sem fusão. Usamos uma cânula fina e um endoscópio, um aparelho com câmera, iluminação e canal para os instrumentos. As imagens ampliadas aparecem em um monitor e permitem retirar somente o fragmento que comprime o nervo, preservando os músculos, os ossos e o movimento da região.


Em geral, é indicada para hérnias laterais, que comprimem a raiz de um nervo e causam dor predominante no braço, sem compressão importante da medula e sem instabilidade. Não é a melhor opção para todos: a escolha entre endoscopia, ACDF e prótese de disco é feita na consulta, a partir dos sintomas e dos exames.


O Dr. Ivan faz cirurgia endoscópica de coluna desde 2012, com mais de 1.000 cirurgias endoscópicas realizadas, e ensina a técnica aos residentes de coluna do Hospital das Clínicas. A monitorização neurofisiológica acompanha a função dos nervos durante todo o procedimento, em qualquer tipo de cirurgia.


Como toda cirurgia, as cirurgias cervicais têm riscos, como infecção, sangramento, lesão de nervo ou da medula, rouquidão ou dificuldade para engolir passageiras (na via anterior), rompimento da membrana que envolve os nervos (dura-máter), falha na união das vértebras (na artrodese), desgaste dos discos vizinhos com o tempo e recidiva da hérnia. Os riscos e a recuperação variam de acordo com cada caso e são explicados na consulta.


Quer saber mais sobre a técnica? Veja a página de Endoscopia de coluna.

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Dúvidas Frequentes

  • Dor no pescoço é causada por hérnia de disco?

    Em geral, a dor no pescoço está mais ligada aos músculos e às articulações do que aos discos. O principal sintoma da hérnia de disco cervical é a dor que desce para um dos braços, muitas vezes com formigamento, dormência ou perda de força. Para saber mais sobre a dor no pescoço, veja a página de Cervicalgia, no menu "Entenda sua doença".

  • Formigamento na mão é causado por hérnia de disco?

    Pode, quando o formigamento ocupa dedos específicos da mão e vem junto com dor que desce do pescoço. Porém, outras causas são comuns, como a síndrome do túnel do carpo e a neuropatia diabética, por isso o diagnóstico depende de avaliação médica e de exames, como a ressonância magnética e a eletroneuromiografia.

  • O que é cervicobraquialgia?

    Cervicobraquialgia é a dor que sai do pescoço e vai para o braço, causada pela compressão de um dos nervos da coluna cervical. Cada nervo (C5, C6, C7 e C8) é responsável por um território de sensibilidade e de força no braço e na mão, por isso o trajeto da dor e da dormência ajuda a identificar qual nervo está comprimido. A hérnia de disco cervical é uma das causas mais comuns de cervicobraquialgia.

  • Qual a diferença entre protrusão e extrusão?

    A protrusão é um abaulamento do disco intervertebral; neste caso, o conteúdo do disco ainda permanece no interior do mesmo. A extrusão discal é uma ruptura de todas as camadas externas do disco, com o extravasamento do seu conteúdo para dentro do canal dos nervos. Tanto a protrusão como a extrusão podem ser chamadas de hérnia de disco e podem dar sintomas de dor irradiada devido à compressão dos nervos.

  • Quem teve hérnia de disco não pode mais praticar esportes?

    Muito pelo contrário, a prática de esportes deve ser estimulada, tanto após o tratamento conservador como após o tratamento cirúrgico do paciente.

  • O que é dor neuropática?

    A dor neuropática é um tipo de dor crônica que ocorre quando os nervos do Sistema Nervoso Central e/ou periférico são feridos ou danificados. A dor característica é, em geral, uma sensação de queimação, dormência ou formigamento. A dor neuropática é muito comum nas doenças relacionadas à coluna, entre elas a hérnia de disco.

  • A hérnia de disco pode desaparecer sozinha?

    Sim, em muitos casos. Parte do fragmento herniado pode ser reabsorvida pelo organismo ao longo de semanas ou meses, e os sintomas melhoram com o tratamento sem cirurgia. Por isso, a maioria dos pacientes não precisa operar. A cirurgia é considerada quando há perda de força, sinais de compressão da medula (mielopatia) ou quando a dor no braço persiste apesar do tratamento.

Sobre o Profissional

Dr. Ivan Dias da Rocha


Ortopedia e Cirurgia da Coluna | CRM-SP 108277 RQE: 102191


Graduado em medicina pela USP, Dr. Ivan fez residência médica e especialização em cirurgia da coluna no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas (IOT-HCFMUSP), onde é Chefe do Grupo de Coluna.


Possui mestrado com ênfase no tratamento da dor pela mesma instituição e fez mais de 20 cursos no exterior na área de cirurgia da coluna.


É pós-graduado em dor pelo Hospital Albert Einstein e em medicina regenerativa, com título concedido pela American Society of Regenerative Medicine.


Fez também curso de intervenções guiadas por ultrassom no Hospital das Clínicas.

Conheça o Dr. Ivan